Registo
Foto Fomos conhecer o Rottweiler Clube de Portugal

O Rottweiler é uma das raças considerada por lei como “potencialmente perigosa”, mas a nova direcção do Rottweiler Clube, formada por uma equipa multidisciplinar, está determinada em acabar com este rótulo e aposta na divulgação e sensibilização do Rottweiler junto ao grande público, seja ele as novas gerações ou donos menos informados. Encontrámo-nos com o Cláudio Nogueira, o actual Presidente do Rottweiler Clube Portugal (RCP), para conhecer melhor a estratégia do clube na desmistificação do Rottweiler.

Doglink: Olá Cláudio. Prazer em conhecê-lo!

Cláudio Nogueira: Olá, estejam à vontade!

Existe a ideia generalizada que um clube da raça é destinado principalmente aos criadores da raça e a todos aqueles que a querem encarar de uma forma mais “profissional”. Esta ideia verifica-se para o RCP?

O RCP existe para todos os amantes da raça, quer sejam eles criadores, proprietários ou apenas interessados pela raça. Estamos atentos às suas necessidades e preocupações, de modo a incentivar a participação e integração de todas as partes no RCP. No entanto, o principal foco, desde 2012, tem sido os proprietários, não para os elevar ao nível profissional dentro da raça mas para os ajudar a conhecer melhor os seus cães, quer na sua vertente morfológica quer temperamental.

Ainda há muitas pessoas que não conhecem os cães que têm?

Mais do que se possamos imaginar e isso não se aplica só aos Rottweilers. Há pessoas que pensam que têm cães muito bonitos – e aos seus olhos têm! – mas que não se enquadram no estalão da raça. Outras pensam que os seus cães são muito medrosos e o que se constata é que estão apenas mal sociabilizados. É por isso que apostamos no contacto directo com o proprietário do cão, para que estes possam conhecer o seu Rottweiler quer na sua vertente morfológica quer na vertente temperamental e carácter.

A divulgação do estalão da raça é então a prioridade principal do clube.

Sim, para além da sensibilização sobre os deveres e responsabilidades de ter um cão. É importante que as pessoas passem a valorizar e conheçam o estalão da raça para quando forem procurar um cão o façam em conformidade com o mesmo. No entanto, é preciso ter bom senso e saber que o estalão é uma linha orientadora e que não existem cães perfeitos. É também aqui que entra a sensibilização ao criador. Muitas vezes o criador cria em quantidades desmedidas à procura do exemplar perfeito, e isso é uma ilusão.

Mas, na prática, em que é que o vosso contacto com os proprietários se traduz?

Traduz-se na organização de eventos em que participam vários donos de Rottweilers com as suas mascotes e onde se demonstram as qualidades e as coisas menos boas que eventualmente cada cão tenha, para os donos irem para casa com uma ideia mais optimizada daquilo que é o seu cão. Com esta postura ganhamos melhores donos, melhores cães e pessoas mais informadas.

Estas iniciativas servem também para desmistificar a imagem negativa associada ao Rottweiler?

Claro. Queremos provar “no terreno” de uma forma transparente e clara que a imagem negativa da raça não corresponde à realidade. Assim, ao organizarmos eventos junto do grande público temos oportunidade de mostrar a polivalência da raça: o Rottweiler como cão de companhia, guarda, busca e salvamento, pastoreio, de manutenção de ordem pública, etc. O Rottweiler é uma raça polivalente e equilibrada que se for correctamente educada, sociabilizada e treinada pode ser facilmente integrada em sociedade. Mais do que falar, é isso que provamos em cada evento!

E sente que depois das demonstrações as pessoas mudam de opinião ou ainda ficam de pé atrás?

Temos consciência que não é só com um evento que se mudam as opiniões, mas é preciso começar por algum lado. Posso dizer que já cheguei a ouvir comentários do género: “pois, ele agora está ali com as crianças sossegadinho mas só porque está ao pé do treinador, senão…”. Por outro lado também já se sentem os resultados positivos. As pessoas cada vez mais se agarram à frase “não há cães perigosos, há é donos perigosos” e começam a defendê-la. No entanto, há ainda um nicho de pessoas que continuam relutantes, não no aspecto de acharem que o cão é perigoso, mas de perceberem que para terem realmente um Rottweiler integrado em sociedade é preciso um esforço adicional.

Pois, ter um Labrador ou um Rottweiler não é a mesma coisa…

Isso é evidente! E há-que dizê-lo sem qualquer receio! Se tiver um Labrador e não lhe der qualquer tipo de educação ou sociabilização, ele, à partida, será apenas um cão destabilizado a todos os níveis. Se tiver um Rottweiler que não é educado, sociabilizado e treinado, ele, para além de adoptar o mesmo tipo de comportamento que o Labrador teria nestas mesmas condições, se tiver que se impor perante algo, irá fazê-lo sem qualquer problema devido ao seu carácter mais forte. Aí é que começam os problemas…

O Rottweiler não é um cão para qualquer pessoa. Qual é que deve ser o perfil do dono de um Rottweiler?

Primeiro que tudo, o dono deve ter força física para controlar o animal que pode chegar aos 50 kg, mas mais do que isso deve ser mentalmente equilibrado e ser respeitador. Qualquer dono deve perceber que o seu cão não pode incomodar ninguém na via pública, e no caso de um dono de Rottweiler este deve ter consciência que, quer queira quer não, ele impõe respeito naturalmente. É preciso respeitar as pessoas que não gostam de cães ou têm medo de cães, seja o seu medo fundamentado ou não!

E em termos de competências técnicas?

O dono do Rottweiler deve ter as bases mínimas sobre comportamento animal. Como tal, quem pense em adquirir um cão desta raça deve primeiro adquirir estas competências. Para além disso, precisa de ter disponibilidade de tempo e financeira para educar, sociabilizar e treinar o seu cão. É preciso ter todas estas valências e abertura para poder ter um cão integrado em sociedade.

Muitas pessoas adquirem Rottweilers ignorando todas as valências individuais que acabou de mencionar. É por isso que ainda surgem ataques de Rottweilers a pessoas?

Os ataques que acontecem de cães a pessoas, e nomeadamente de Rottweilers, estão na maioria dos casos, e em Portugal isso tem sido flagrante, relacionados com situações em que os cães estão confinados a espaços e não têm qualquer contacto com o mundo exterior nem com muitas pessoas para além do agregado familiar. Quando um dia estes cães saem cá para fora, porque o portão se avariou ou a corrente se partiu, a agressividade que demonstram é de medo e não inata. O cão entra completamente em pânico com situações que nunca viu na vida e a defesa dele é o ataque.

E como é que explica os ataques dentro da própria casa? São cães desequilibrados?

À partida não. Um cão que cresceu numa propriedade (com pouco contacto com o mundo exterior) e entendeu que o espaço é dele durante anos, se a determinada altura tiver que ficar confinado a um espaço, ou porque nasceu uma criança ou passou a frequentar a casa uma pessoa com medo de cães, ele não irá perceber. Na cabeça do cão, a chegada da pessoa implica perda de território. Quando o cão tiver oportunidade, ele irá/poderá atacar a pessoa para voltar a "estabelecer a normalidade" da casa. Estas situações acontecem derivado a uma incorreta educação e intregação do cão em sociedade. Inconscientemente, as pessoas acabam por criar cães de guarda com índices de agressividade (territorial/medo) elevados.

Mas também existe muita legislação em torno do Rottweiler, por este ser considerado um cão potencialmente perigoso. Sente que a legislação apertada tem feito diminuir a aquisição de Rottweilers?

Não, a diminuição da sua popularidade é que o fez. Há muita falta de informação tanto sobre os cães como sobre a legislação. A grande maioria das pessoas sabe que existe legislação, mas não a conhece. Há ainda pessoas que não sabem sequer da existência da legislação.

A sério?

Sim, sim. Até lhe dou um exemplo: desde o ano 2000 que não é permitido amputar a cauda ao Rottweiler e, hoje em dia, ainda há pessoas que nos perguntam quais os criadores que vendem cães com cauda amputada. Quando lhes dizemos que não é permitido por lei ainda perguntam, em jeito provocatório, “onde está escrito?”. Mais tarde essas mesmas pessoas voltam a contactar-nos a pedir aconselhamento pois foram alvo de denúncias, porque realmente ignoraram de todo a lei…

Acha que a categorização do Rottweiler como cão potencialmente perigosos acaba por funcionar como um incentivo à aquisição dos mesmos?

Estou certo disso. O facto de se identificar claramente por lei que a raça A, B ou C pode ser potencialmente perigosa leva exactamente à procura dessas raças para fins menos claros. Felizmente, com o tempo, temos vindo a assistir a alguns países a abolirem as listas de cães potencialmente perigosos. O caso mais flagrante e recente foi o da Itália onde chegaram a ter 17 raças potencialmente perigosas, entre elas o Rafeiro Alentejano. Os italianos aboliram a lista porque para além de ser complicado gerir a legislação, esta não resolveu o problema, ou seja, não houve uma diminuição efectiva dos ataques de cães a pessoas.

Então quando o RCP diz que “a legislação em torno das raças consideradas "potencialmente perigosas", não é a mais ajustada”, querem seguir os passos dos italianos e abolir também esta lista?

Sim, é nesse sentido que trabalhamos. Consideramos a categorização das “raças potencialmente perigosas” promíscua e preconceituosa. Queremos fazer com que a legislação se baseie na responsabilização do detentor do cão, ou seja, que este seja responsável pelos danos que o seu cão cause a terceiros. Isso já acontece noutros países europeus, como a Bélgica, em que qualquer cão, independentemente da sua raça ou sem raça definida, poderá ser considerado potencialmente perigoso ou perigoso consoante o acidente que causou, mas o responsável será sempre o proprietário do cão.

Qual a situação actual do Rottweiler em Portugal em termos de números?

Houve um decréscimo significativo do número de Rottweilers. Refiro-me aos números que tenho acesso, ou seja, de criadores que estão a criar supostamente dentro da legalidade. A chamada “criação de quintal” ainda existe e continua-se a ver Rottweilers bebés com caudas amputadas na rua. Infelizmente, algumas lojas de animais fomentam esse tipo de criação, o que é bastante grave…

Para finalizar, o que é que mais o preocupa?

Preocupa-me sobretudo as mentiras que se constroem à volta das raças e o facto de existirem pessoas que acreditam tanto nelas que não querem ouvir a verdade dos factos ou, vá lá, outra verdade. Às vezes as mentiras são ditas tantas vezes que acabam por se tornar verdades...

E depois é mais difícil revertê-las! Desejamos votos de sucesso para a monográfica!

Obrigado. Que seja mais um motivo para promover a união em torno da raça e comemorar os 20 anos do RCP!