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Foto Fomos conhecer a Fundação São Francisco de Assis

Num período de crise em que os apelos aos animais são constantes e as adopções são mais difíceis, existe uma associação que contraria essa tendência. Em Cascais, a Fundação São Francisco de Assis tem-se vindo a revelar como um apoio indispensável aos animais do concelho, superando os números de adopções ano após ano. O Doglink foi conhecer melhor a Fundação e perceber como  foi possível alcançar estes resultados. Fomos recebidos pela cara principal da instituição, a Maria João Pulido (MJ).

Doglink: Olá Maria João!

Maria João: Olá. Quem é que vocês são?

Somos do Doglink!

MJ: Ah pois é, sejam bem-vindos! Pelo que percebi do que vocês querem abordar, talvez seja melhor falarem também com o Presidente do Conselho de Administração, o Dr.º José Manuel Nunes de Carvalho (JMNC).

Prazer em conhecê-lo Sr. Presidente. Antes de mais, parabéns pelo vosso trabalho! No ano passado bateram mais um record não foi?

JMNC: É verdade. O nosso número de adopções tem vindo a subir e no ano passado conseguimos colocar 414 animais (sendo 254 cães) na adopção. Tendo em conta que somos uma entidade que trabalha exclusivamente para o concelho de Cascais, estes números são francamente animadores.

Ainda assim a vossa lotação está quase cheia, certo?

JMNC: Sim. Temos 92 cães e recebemos sistematicamente cães que estão no Canil Municipal, que é mesmo aqui ao lado. O nosso posicionamento é resgatar os animais do canil municipal. Os dois lados estão praticamente sempre lotados. Temos um canal de entrada e um canal de saída que estão sempre cheios. Cheios momentaneamente: a determinada altura é possível termos uma boxe vaga, mas entretanto já vamos buscar um cão ao canil; no canil, eles abrem outra vaga para as pessoas que querem entregar o seu animal.

E a Fundação também recebe animais?

JMNC: Por norma, não. O canil municipal faz as capturas na via pública e aceita os animais – que está previsto na legislação – de pessoas que, por razões económicas ou por outros motivos deixam de poder ter os animais. Nós estamos articulados “ao segundo” com eles para procurar novos donos.

Então a Fundação e o Canil Municipal são dois serviços complementares. Isto foi algo pensado desde o início da fundação ou esta foi instituída independentemente do Canil Municipal?

JMNC: A Fundação foi instituída em 2001 pela Autarquia de Cascais com o objectivo muito nobre e, talvez até pioneiro, de dar resposta ao grande estigma que os canis municipais tinham nessa altura.

E que ainda têm…

JMNC: Era o que eu ia dizer. Não é que estejam aliviados disso, mas felizmente acho que o País que tem vindo a recuperar alguma coisa nesse aspecto. Continuando, criou-se esta instituição para funcionar como complemento ao Serviço Veterinário Municipal, no sentido de dar a possibilidade de uma vida nova a todos os animais que entram no canil. 

E a Fundação continua a ter um grande apoio da autarquia do Município de Cascais?

JMNC: Bem, ao longo de muitos anos a Autarquia foi o principal apoio financeiro para o funcionamento da casa. No entanto, um dos objectivos estipulados desde o início foi procurar também fontes de rendimento próprio. Com a dinâmica que temos vindo a desenvolver nestes últimos anos, temos conseguido gerar receitas próprias. Uma das grandes fontes de rendimento de receitas próprias para a fundação é exactamente o crematório. Fazemos cremações individuais com um certo cerimonial de dignidade a todas as pessoas que nos procuram. Para além disso, também temos uma loja, hotel e abrimos no ano passado o consultório veterinário.

O consultório também está aberto ao público em geral?

JMNC: Não. O consultório funciona exclusivamente para os animais da Fundação em duas vertentes. Uma é para os animais que são adoptados cá em casa, ou seja, para todos os que adoptem um animal da fundação oferecemos este serviço a preços muito interessantes. Julgamos que é mais um argumento que favorece a adopção. Em segundo lugar, o consultório funciona para os animais que estão na Fundação e que se apresentam doentes, com traumatismos ou qualquer outra patologia que comprometa o seu estado de saúde e que justifique uma intervenção. Portanto, são acompanhados logo a partir da entrada pelo consultório médico.

E estas fontes de receitas permitem reduzir a contribuição do esforço público?

JMNC: Nem mais! No nosso relatório de contas de 2012 está espelhado que a quantia que o município deu à fundação já só correspondeu a 23,32 % das receitas totais. Para além disso, a nossa actividade comercial não está isenta de impostos (como é natural) e também pagamos segurança social enquanto entidade patronal, porque temos 9 colaboradores a trabalhar cá em casa e o IVA das operações comerciais. Este ano, ao fazermos a comparação entre o dinheiro público que nos foi dado e aquilo que nós colocámos nos réditos públicos nacionais (Seg. Social, IRC e IVA), chegamos à conclusão que devolvemos ao Estado 88 % daquilo que recebemos. Assim, o esforço público para a Fundação correspondeu ao 12 % daquilo que foram as suas necessidades financeiras. Por isso, estamos no bom caminho!

A Fundação está também muito virada para fora no que toca a estabelecer parcerias. Uma das parcerias é com o Banco de Sangue da Faculdade de Medicina Veterinária. Qual o objectivo?

JMNC: Esta parceira começou há cerca de 5 anos e tem dois objectivos do lado da Fundação. Primeiro, ao fazerem a recolha do sangue dos animais temos a possibilidade de fazer a despistagem de doenças infecto-contagiosas com métodos analíticos mais avançados e, assim, controlar a comunidade aqui residente. O sangue disponibilizado serve ainda para estudos de investigação feitos na Faculdade e pode ser utilizado no próprio Hospital da Faculdade para determinadas intervenções que podem salvar a vida de outros animais.

O segundo objectivo, que será protocolado no próximo dia 5 de Junho, será a prestação de apoio na área traumática por parte da Faculdade – intervenções cirúrgicas mais delicadas ao nível de ortopedia, principalmente. Já fazemos muitas coisas com o grupo cá de casa e com veterinários externos que nos dão apoio, mas temos que ir mais longe para que possamos salvar o maior número de animais possíveis.

E, de facto, estão a conseguir. A vossa taxa de adopções é impressionante. 80 % certo?

MJ: Um bocadinho mais: 86 % de um total de 2250 cães, desde o ano 2001!

Esta taxa de “sucesso” deve-se às condições que oferecem aos adoptantes?

JMNC: Sim. Para além de estarmos muito focalizados em resgatar, procuramos identificar todas as condições que favoreçam a decisão de adopção e criar essas condições para que possamos continuar a aumentar e fomentar as adopções responsáveis.

E que condições são essas?

JMNC: O animal à saída cá de casa já leva uma mochilazinha financeira que não é nada pequena: já está vacinado, desparasitado (interna e externamente), chipado, registado na base de dados nacional (SIRA) e se possível esterilizado. Para além disso, podemos garantir que o animal é saudável. Se na sua idade ainda não for recomendada a esterilização, então o animal é entregue sem ser esterilizado e entra na nossa base de dados de controlo dos animais adoptados. O adoptante é informado que, a partir da data de adopção, tem um ano para trazê-lo cá e esterilizá-lo a custo zero. E somos bastante assertivos nesse controlo: passamos a vida a incomodar os adoptantes [risos].

Para além disso, no ano passado lançaram também uma campanha focada para o sénior. Têm muitos cães seniores na fundação?

JMNC: Neste momento temos praticamente um santuário animal em casa, ou seja, cerca de 50 % das nossas boxes estão a ser ocupadas com animais que já estão numa idade difícil de colocar na adopção. Não estamos a falar só de cães com mais de 8 anos de idade, mas cães com idades superiores aos 4 anos. Foi por isso que resolvemos lançar essa campanha com algumas vantagens para o adoptante: garantimos cuidados médicos até ao final de vida do animal (incluindo vacinação e desparasitação) e preços vantajosos para a compra da ração do animal. Vejam bem, estes seriam quase todos os cuidados que teríamos caso o animal estivesse cá em casa. Por isso, é preferível trocar espaço com alguém que cuide do animal e termos de suportar uma grande parte dos custos. Deste modo, podemos ter a rotação desejável e resgatar mais animais.

E qual é a vossa taxa de devolução?

MJ: É baixa, mais exactamente 10 %. Este valor corresponde sobretudo a cachorros que são os preferencialmente adoptados… ora não parecessem eles uns peluchinhos! No entanto, são uma carta fechada, não sabemos o que vai lá dentro, não sabemos que tipo de cão é que vai ser ou que tipo de índole é que vai ter. Sabemos de antemão uma coisa: é que dá 100 vezes mais trabalho do que um cão adulto ou jovem! Assim, estes 10 % são definidos maioritariamente por pessoas que os vêm cá buscar por ímpeto.

Qual a importância de ajudar as pessoas na escolha de um cão?

MJ: É fundamental aconselhar as pessoas para que tomem as melhores decisões. Somos nós que convivemos diariamente e conhecemos o temperamento dos animais. Ao longo destes anos, tenho a sensibilidade que me permite indicar qual o cão da Fundação que lhe melhor se enquadra no perfil dos futuros donos. Faço perguntas de modo a avaliar o perfil dos donos e, deste modo, procurar o cão que mais se associa a eles. Se vir que não têm condições ou perfil para ter um cão, explico-lhes as responsabilidades que este acarreta e dou-lhes a triste notícia que há nenhum cão para eles… Por vezes, até acabam por levar um gato! [risos]

Sabemos que as pessoas se desfazem dos seus cães pelos mais variadíssimos motivos. Qual a desculpa que mais a chocou?

MJ: Nós aqui na Fundação não sabemos a maioria das histórias dos cães visto que eles são entregues ou capturados pelo Canil. Mas, em geral, o que mais me choca é a capacidade das pessoas em entregar ou mesmo abandonar um animal sénior. Não percebo como é que há pessoas que conseguem apagar da sua memória o animal que lhe fez companhia durante anos sem sentirem quaisquer remorsos ou nem se preocupando em saber, em diante, como está o animal.

O português tem sempre o hábito de dizer: isto vai de mal a pior. O ditado aplica-se à relação que os portugueses têm com os animais?

JMNC: Eu penso que não. Acho que é possível consciencializar e sensibilizar através do exemplo e, pelo que vai acontecendo, as pessoas vão-se apercebendo que existem instituições a fazer trabalho pelos animais, que estes estão a ser apoiados e que requerem certos cuidados. Ainda há maus-tratos a acontecer mas quando há denúncias, os técnicos veterinários já fazem visitas, já se levantam autos e criam-se problemas. De facto, a nossa legislação ainda está um bocadinho atrás, mas acho que se está a fazer caminho! E do ponto de vista de civilização, penso que estamos a melhorar. É um caminho difícil mas temos que mudar comportamentos e atitudes. Temos que actuar aí!

É mesmo! Obrigado pelo vosso espírito e disponibilidade!

 

Alguns espaços da Fundação

Canil.

Parque de treino e diversão.

Hotel.

Consultório Médico-Veterinário.

Uma das incineradoras existentes no crematório.