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Foto Os cães seguem os mais amigáveis e não os alfas

Este artigo foi adaptado do livro “The Genius of Dogs” de Brian Hare, um professor assistente, e de Vaness Woods, uma investigadora ambos do departamento de Antropologia Evolucionista na Universidade de Duke, no estado da Carolina do Norte, EUA. Juntos fundaram a Dognition, um serviço online que permite ajudar as pessoas a encontrar o génio que existe por trás de cada cão.

Nunca deixe o seu cão passar primeiro que você. Não deixe que o seu cão puxe e ganhe o brinquedo. Para mostrar que é o 'líder da matilha', meta o seu cão com a barriga para cima e segure-o no pescoço."

Estes são os conselhos de algumas escolas de treino cuja filosofia defende que os donos devem ter com os seus cães uma relação de dominância para assegurar que estes lhes sejam obedientes.

Esta filosofia assenta na ideia das matilhas de lobos terem uma hierarquia rígida na qual se compete por dominância, mas sendo todo o grupo mantido sob o controlo do alfa macho ou fêmea. Dado que os cães evoluíram dos lobos, alguns treinadores encorajam os donos a agirem como o lobo alfa.

Do ponto de vista científico, o problema desta abordagem está no facto de se assumir que o sistema social dos cães é o mesmo dos lobos. A domesticação alterou o sistema social dos cães. Se as pessoas pretendem observar o comportamento canino sem qualquer interferência por parte dos humanos, o melhor modelo de estudo será o dos cães selvagens.

Por cães selvagens entende-se aqueles que foram domesticados mas que voltaram a existir “livres” na natureza sem qualquer contacto com humanos, como os dingos ou as populações de cães vadios, que sobrevivem recorrendo aos desperdícios dos humanos. Ao contrário dos cães domésticos, a maioria das populações de cães selvagens não foi intencionalmente criada de geração em geração pelo Homem e representam óptimos modelos de como os cães reagem na natureza sem os humanos.

Nos lobos, com a excepção das grandes matilhas, um único casal é dominante a todos os elementos da matilha. Este casal usa a dominância para evitar que os restantes membros da matilha cruzem. A fêmea dominante é sempre agressiva e ataca sem ser provocada outras fêmeas para evitar que estas acasalem. Os machos só são normalmente agressivos durante a época de acasalamento. Os lobos mais jovens e os restantes subordinados da matilha são, regra geral, a descendência do casal alfa. Os jovens são obrigados a permanecer junto dos progenitores pelo menos até serem adultos pois antes disso é perigoso lidar com uma matilha desconhecida.

Diferença social entre cães e lobos: os cães cheiram os rabos uns dos uns, enquanto que os lobos nunca toleram tal acto.

Os cães selvagens têm um sistema diferente. Enquanto alguns grupos têm uma hierarquia dominante que prevê prioridades no que toca à comida e acasalamentos, esta hierarquia não é tão rígida como no caso dos lobos. Não existe nenhum casal dominante que lidere o grupo, ao invés, o líder o grupo é o cão que tem mais ligações sociais dentro do grupo. Quando a matilha decide para onde ir, não é o cão mais dominante que é seguido, mas sim aquele que tem mais “amigos”.

No entanto, o cão alfa é ainda a abordagem que prevalece muitas vezes no mundo do treino. Numa das várias experiências em que foi testada esta teoria, os investigadores avaliaram quanto tempo é que um grupo de Goldens Retrievers demorava a obedecer a comandos antes e depois de ganharem vinte jogos da corda e perderem outros vinte. Alguns membros das escolas de treino convencionais sugeriram que os investigadores não deveriam deixar o cão ganhar, pois estes iriam pensar que dominavam o jogador humano.

Os resultados demonstraram que o ganhar ou perder o jogo não influenciava o comportamento dominante dos cães em relação ao jogador humano.

Os cães não são lobos. É altura das pessoas começarem a tratá-los como espécies únicas com uma mente e capacidades sociais diferentes dos seus antepassados.

Fonte: livescience