Registo
Foto O uso de cães em testes laboratoriais

Da próxima vez que usar shampoo, ambientador, creme para as mãos ou tomar um medicamento, pense no seguinte: “como é que sei que isto não é tóxico?” Qualquer que tiver sido o teste toxicológico feito aos seus componentes o mais certo é que tenha envolvido animais de laboratório, o método de despiste usado durante décadas.

O melhor amigo do homem carrega um fardo importante na indústria farmacêutica. Todos os anos, milhares de cães são usados em estudos para testar a toxicidade de novos medicamentos, apesar de muitos cientistas acharem que estes representam previsões pouco precisas de quais os efeitos das drogas nos humanos. Este tópico não é recente e em 2011 após a morte do filantropo e amante canino Hildegard Doerenkamp, toda a sua herança foi doada à sua fundação Doerenkamp–Zbinden baseada em Zurich, na Suíça. Esta fundação foi criada em 1985 e os seus fundadores tinham um objectivo: “todas as experiências que não necessitem de animais, principalmente cães e outros animais de companhia, devem ser substituídas por testes modernos e clinicamente relevantes”. 

Em 2011, os investigadores de toxicidade quer do meio académico quer do meio industrial reuniram-se para saber como é que o donativo de mais de 1 milhão de euros poderia ser gasto para implementar mudanças. Os cientistas precisavam de identificar qual a informação que era possível retirar dos testes em cães que não se conseguia retirar de testes in vitro ou com espécies roedoras.

As entidades reguladoras como a Food and Drug Administration (FDA) ou a European Medicines Agency necessitam que as novas drogas sejam testadas para avaliar a sua toxicidade, quer em roedores como espécies não roedoras. Estas últimas tendem a ser cães, já que estão rapidamente disponíveis, são fáceis de lidar e em muitos casos semelhantes ao humano. Os testes farmacêuticos representam ¾ dos cães que são usados em ciência.

Mas os cientistas dentro e fora da indústria dizem que os cães nem sempre são a melhor opção para os testes e podem, em alguns casos, ser substituídos por testes in vitro. “Apesar destas opiniões e da inquietação pública acerca do tópico, muito pouco tem sido feito para inibir esta prática”, diz Thomas Hartung, um toxicologista molecular e director do Centro de Testes Alternativos em Animais (CAAT) na Universidade de Johns Hopkins em Baltimore (Maryland, EUA).

As entidades reguladoras hesitam em mudar os procedimentos. Qualquer reacção adversa a novas drogas, poderá culpabilizar os novos testes senão conseguirem identificar os perigos à saúde humana. Hartung diz que “só se os resultados de uma série de testes in vitro forem iguais às previsões de toxicidade obtidas a partir de testes em cães é que se conseguirá convencer as entidades reguladores a mudarem os protocolos”.

A CAAT irá organizar uma base de dados com os resultados de testes feitos em cães para tentar identificar quais poderão ser os testes in vitro que enaltecem os efeitos fisiológicos somente observados nos cães. É também uma maneira de perceber se os cães são o melhor modelo para estes testes ou se se podem usar outras espécies (como o mini-porco). O toxicologista Georg Schmitt da Hoffmann La-Roche em Basel, Suíça, diz que as empresas farmacêuticas não devem usar cães somente pelo facto de já existirem instalações e protocolos estabelecidos. “Os cães podem ser demasiado sensíveis a certos compostos, como hormonas e o seu sistema gastrointestinal funciona de maneira muito diferente ao dos humanos”, diz Schmitt. Refere ainda que os estudos em que os cães provaram ser maus modelos para investigação devem também ser mencionados.

Esta iniciativa foi inspirada numa organização que foi formada há mais de uma década atrás pelo especialista em testes de novas drogas David Smith. Smith reuniu mais de 12 empresas farmacêuticas para ter discussões secretas acerca de testes praticados em cães. O grupo avaliou testes para mais de 100 compostos e desenvolveu protocolos standardizados para diferentes dosagens. Smith diz que isto resultou na redução da utilização de mais de 120 cães por empresa todos os anos.

O objectivo da CAAT é também formar um comité internacional composto por várias empresas farmacêuticas para definir as melhores práticas de como lidar com os cães bem como os testes que são estritamente necessários e abolir os que não sejam.

Além disso, Hartung diz que é também necessário fazer um comité com as entidades reguladoras, pois as empresas irão continuar a fazer os testes se estas assim o exigirem. Por exemplo, em 2006 a União Europeia terminou com os requisitos dos testes de toxicidade crónicos durante 12 meses em cães, no entanto a FDA ainda os exige.

Hartung espera que esta nova iniciativa focada nos cães contribua para estabelecer novas alterações nos testes feitos em animais. “Não se prende só em utilizar menos cães, mas em alterar os protocolos dos testes de toxicidade que têm sido utilizados há mais de 40 anos”, diz ele. “As novas implementações científicas irão contribuir para proteger ainda mais a saúde humana.”

Apesar dos esforços para implementar métodos alternativos ao uso de cães em investigação e medidas para assegurar aos "bons tratos" dos mesmos, têm surgido casos como o de Rouge que foi usada em experiências cruéis para testar o coração na Universidade do Estado de Wayne (EUA). O seu peito e abdómen foi aberto e nove implantes foram colocados. Após a cirurgia, Rouge foi forçada a correr durante quatro dias numa passadeira. Em poucos meses morreu. A vida agonizante e curta de Rouge não levou a nenhum avanço na medicina.

Fontes: Naturesciencemag; PCRM ; JHSPH.