Registo
Foto Luxação Patelar

A maioria dos donos de cães de raças pequenas está familiarizado com o andar de “janota” dos seus cães. Esse andar característico pode até ser querido e engraçado, mas para alguns cães pode ser (ou vir a ser) doloroso. Quando um cão evita usar alguma das patas isto pode indicar luxação da patela e, com o passar do tempo, esta condição pode progredir e exigir até intervenção cirúrgica.

O que é a luxação patelar?

A luxação patelar consiste no desvio medial ou lateral da patela (rótula) que sai do seu trajecto normal provocando instabilidade na articulação femuro-tibio-rotuliana (joelho).

A patela desliza para cima e para baixo à medida que a articulação trabalha e está localizada numa fenda existente na cabeça do fémur, a chamada tróclea femural. A patela é suportada por ligamentos que se ligam aos músculos da coxa e que, no outro extremo, se ligam à tíbia. Desta forma a patela guia a acção do músculo do quadríceps na parte inferior da perna. Como tal, a luxação de patela está sempre relacionada com o alinhamento do mecanismo do quadríceps. Caso hajam deformações do fémur e tíbia, esse alinhamento perfeito pode perder-se e, neste caso, ocorre a luxação da patela.

A luxação da patela pode ocorrer medialmente ou lateralmente. Na luxação medial da patela esta é desviada no sentido do outro joelho do animal, enquanto que na luxação lateral a patela desloca-se no sentido inverso, ou seja, para fora do corpo do animal.

A forma mais frequente é a luxação medial da patela (75 a 80% dos casos) sendo normalmente bilateral, ou seja, apresentando-se nos dois joelhos, mas nem sempre com a mesma severidade. No caso da luxação lateral, embora tenha uma incidência menos frequente (20 a 25% dos casos), é uma condição mais debilitante e que afecta sobretudo raças gigantes (ex. Dogue Alemão, São Bernardo, Irish Wolfhound) devido ao fraco alinhamento do esqueleto.

A luxação da patela faz com que o cão adopte uma postura diferente apoiando mais peso nos restantes membros, o que, a longo prazo poderá afectar as ancas, ossos e originar artrite e outros problemas ortopédicos.

Os cães pequenos e de estrutura óssea fina têm maior risco de desenvolver esta condição devido à fragilidade das estruturas colaterais.

Sinais clínicos
  • Claudicação intermitente ou súbita quando associada a trauma ou rotura do ligamento em animais mais velhos por desgaste deste e osteoartrite (Grau 1 e 2). Em casos mais brandos, apoio relutante do membro, andar agachado, os famosos chutes para trás, ou andar saltitando com o membro semi-flexionado.
  •  Claudicação intermitente que se agrava em animais adultos e jovens com a instabilidade articular e desenvolvimento de osteoartrite (Grau 2 e 3).
  •  Claudicação severa com maus aprumos e défice de apoio em animais jovens com deformações severas (Grau 3 e 4).

No entanto, os sintomas variam de animal para animal. São comuns os relatos de claudicação intermitente que resolvem quando o animal estende propositadamente o membro recolocando a patela no seu lugar. Os sinais tendem a piorar com o aumento de peso ou desenvolvimento de doença articular degenerativa.

O que é que causa?

Este tipo de luxação ocorre ou porque o animal sofreu um trauma (atropelamento ou queda) ou porque a genética o ditou. As luxações traumáticas são relativamente raras; já as luxações não traumáticas são bastante frequentes e até preocupantes. Apesar da luxação da patela não estar presente no momento do parto, as alterações anatómicas que a despoletam estão, sendo por isso considerada, por vezes, congénita.

Está comprovado que existe hereditariedade desta patologia pelo que os animais que a apresentem não devem ser cruzados. Quando comprar um cachorro certifique-se que os progenitores estão livres da doença.

Como diagnosticar?

Se reparar que o seu cão está a exibir sinais da luxação patelar, como dor extrema quando corre ou barulho de deslocação na área do joelho leve-o ao veterinário. O veterinário irá examinar o seu cão aplicando gentilmente pressão sobre a rótula enquanto o joelho está estendido. Quando a patela se desloca há um estalinho distinto e é possível senti-la na sua posição anormal.

O próximo passo é determinar o grau de severidade da luxação e determinar se ocorreram quaisquer alterações artríticas. Através de exames radiográficos é possível avaliar o posicionamento da patela assim como o alinhamento do fémur e da tíbia. A tomografia computadorizada permite a avaliação correcta das deformações do fémur e tíbia e calcular a angulação a corrigir.

Caso pretenda que o seu cão seja um futuro reprodutor certifique-se que ele está livre desta doença.

Procure a avaliação de pelo menos dois ortopedistas, para ajudar a determinar o grau de luxação de patela e decidir se cirurgia é mesmo necessária ou não.

Como tratar?

Os cães assintomáticos ou que apresentem raramente episódios de claudicação (grau 1 e 2) não devem ser submetidos a cirurgia. Estes cães devem ter uma dieta balanceada e manterem-se com o peso ideal para evitar que as suas ancas e joelhos tenham de suportar peso extra. É também importante manter as unhas do cão aparadas para que o cão não adopte posturas erradas que possam traumatizar os joelhos. Para além disso, o cão deve tomar suplementos de glucosamina e condroitina para aliviar o joelho do animal e ajudar a desacelerar o desenvolvimento de artrite.

Os cães que demonstram sinais de dor e que se incluam nos graus 3 e 4 em princípio precisam de cirurgia. O tratamento cirúrgico é composto por várias técnicas que podem ser complementares e que se dividem entre técnicas de reconstrução de tecidos moles e técnicas de reconstrução óssea. A escolha da técnica correcta depende da severidade do problema e da experiência do cirurgião na avaliação do caso. Após a cirurgia o seu cão terá um período de recuperação e irá para casa com a perna ligada. Mas não pense que este deve ficar em repouso total, pelo contrário: deve encorajar a volta da função do membro o mais breve possível, sem logicamente forçar de mais com exercicios intensos (corridas, saltos, etc.). Se o seu cão é muito agitado, alguns veterinários são capazes de prescrever-lhe uns tranquilizantes para que ele fique mais calmo durante este período. Regra geral o cão está de novo pronto a andar dentro de 3 a 4 semanas, no entanto este período depende da complexidade do procedimento cirúrgico. É recomendável que após a cirurgia o cão faça fisioterapia (hidroterapia por exemplo), isto incentivará o animal a usar de novo a perna.

Conclusão

A luxação da patela é uma condição que deve ser tratada assim que se detecta pois começa geralmente com sintomas ligeiros e desenvolve-se até problemas ortopédicos graves. Evite que isso aconteça e comece já a tratar do seu cão.

A luxação patelar começa, na maioria dos casos, na criação do animal. Por isso, certifique-se que quando adquirir um cachorro os seus progenitores estão livres da doença.

Artigo revisto por: Dr. Nuno Paixão e Dr. Gilherme Dipp, ambos da equipa do Hospital VetCentral - VECC.