Registo
Foto Ansiedade canina

O seu cão tem alguma fobia social, ansiedade de separação ou distúrbios obecessivos-compulsivos (como perseguir a cauda)? Então, é possível que ele esteja a sofrer de ansiedade.

A ansiedade não é um problema comportamental, mas está relacionada com a maioria dos transtornos comportamentais caninos, sendo muitas vezes a doença subjacente que dá origem a um problema comportamental específico.

A ansiedade é considerada uma forma de stress que compromete o bem-estar do animal, pois afecta várias hormonas, neurotransmissores e outras substâncias químicas no organismo. Assim, ainda que possa ser considerada “normal” nos dias que correm, deve ser tratada.

Porque é que o meu cão tem ansiedade?

A ansiedade não é algo que está “escrito” nos genes do cão, ou seja, não nasce com ele. Mas pode ocorre ocasionalmente ao longo da sua vida numa variedade de contextos, desde situações de violência física até interacções sociais.

Os factores ambientais que podem contribuir para a ansiedade nos cães incluem uma relação inconsistente com o dono, punição inadequada, stress social com outros animais e privação de contacto social (humano), exercício físico inadequado ou falta de estimulação sensorial.

Como posso ajudar o meu cão?

Pode ajudar o seu animal ensinando-lhe novos comportamentos para que este diminua a frequência e intensidade do seu problema comportamental e atinja um relaxamento geral. Quando o cão aprende um comportamento alternativo apropriado, os níveis de ansiedade geral do animal alteram-se, havendo uma mudança nos níveis dos neurotransmissores e, consequentemente, do comportamento do animal. Induzir o relaxamento em cães envolve ensinar aos donos uma nova maneira de interagir com os seus animais de estimação, ou seja, a modificação do comportamento do dono.

Todas as técnicas aqui apresentadas são as utilizadas pela Drª Quixi Sonntag, médica veterinária especialista em comportamento animal, para a diminuição dos sintomas de ansiedade. Estas técnicas de treino fazem parte da sua terapia comportamental e Quixi defende que não têm de ser necessariamente conduzidas numa escola de treino. Aliás, para os cães que sofrem de ansiedade, o ambiente de treino poderá até ser factor suficiente para despultar stress no animal. Assim, normalmente, é melhor começar com a terapia em casa e quando o cão estiver menos ansioso este poderá frequentar uma escola de treino.

As técnicas abordadas não são as únicas alternativas ao tratamento da ansiedade. Para casos de grande ansiedade há também outros treinos mais avançados (como o treino por clicker). É ainda importante ter presente que os cães ansiosos tornar-se-ão ainda mais ansiosos caso sejam treinados através de métodos correctivos ou que recorram à força, como tal, todas as técnicas aqui apresentadas são de reforço positivo.

Nota: antes de se iniciar qualquer terapia comportamental, é necessário avaliar a condição física do animal de modo a excluir quaisquer causas físicas possíveis.

1. Evite situações que provocam ansiedade

Se o comportamento ansioso é agravado pelo contacto com pessoas estranhas, mantenha o seu cão longe de visitas até este conseguir relaxar o suficiente de modo a permitir a reintrodução gradual a estranhos. Se conseguir prever o problema comportamental do seu cão, antes da ansiedade aparecer, redireccione o animal para outra actividade mais adequada (como brincar com um brinquedo ou fazer o treino favorito). Mais tarde, ao longo do programa de tratamento, estas situações poderão ser reintroduzidas de forma controlada para dessensibilizar o animal.

2. Não reforce o comportamento ansioso

Não confronte o seu cão se este estiver a exibir sinais de ansiedade. Por exemplo, se o estímulo de medo não desaparecer, mostre ao seu cão como se deve comportar, ou seja, mantenha a calma e ignore o animal.

3. Recompense comportamentos adequados

Sempre que o animal se acalmar durante o processo de ansiedade, deve ser recompensado com atenção ou petiscos. Ao recompensar o seu cão pelo seu bom comportamento, ele muito provavelemente irá repeit-lo de futuro. No entanto, o seu cão só irá aprender se o reforço positivo for dado imediatamente após ele exibir o comportamento desejado. As recompensas com comida são geralmente as mais eficientes e não precisam de ser maiores do que um granulado de comida.

4. O contacto social deve partir de si e ser regular

Enquanto dono é importante estabelecer eficazmente os canais de comunicação com o seu cão através do uso correcto de reforço positivo, linguagem corporal e controle de recursos (alimentação controlada e rotinas). Segundo Quixi, isto significa que você terá que aprender a ignorar a iniciação de contacto social com o animal: só quando o animal está calmo e não exige atenção, é que deve receber reforço na forma de atenção, carinho, brincadeira, higiene ou qualquer outra coisa interacção positiva. Claro que as pessoas podem (e devem) demonstrar afecto e interagir com os seus animais de estimação, simplesmente tem que partir de você e deve ser suficientemente “regular” para que o animal de estimação não se torne muito carente de falta de contacto social (isso varia de animal para animal, mas, em média, duas a três sessões de 15 minutos, ou várias sessões curtas, de "tempo de qualidade" por dia devem ser suficientes).

5. Assuma a liderança e estabeleça regras

Todo o contacto entre os animais e pessoas deve ser feito quando o animal está num estado calmo, por exemplo, quando você chega em casa, não deve cumprimentar  imediatamente os animais, mas ignorá-los até que eles fiquem calmos e só depois é que os deve cumprimentar. Os animais também não devem ser alimentados quando querem, mas quando você decide que é a altura certa. O alimento deve ser medido, colocado numa tigela e o animal de estimação só deve ser alimentado depois de cumprir uma ordem. O mesmo se aplica aos brinquedos que devem ser controlados pelos donos. Os procedimentos deste tipo de sistema social reduzem a ansiedade porque os animais se sentem mais à vontade com uma estrutura de liderança clara que controla as interacções sociais e os recursos físicos.

Regras de bolso

  • O seu cão deve receber uma estrutura de regras claras para que possa aprender qual é exactamente o comportamento apropriado (calmo e controlado).
  • O seu cão deve saber que todos os privilégios (alimentação, atenção, jogos, guloseimas, carinho, etc.) só poderão ser conquistados se ele exibir um comportamento apropriado.
  • Perante qualquer comportamento inadequado do seu cão, a sua posição deverá ser sempre ignorar esses comportamentos ao invés de punir o animal.
  • Perante comportamentos desejados, deverá reforçar positivamente através de carinho ou recompensa.

Conclusão

Lidar com um cão ansioso é um processo complexo no qual o dono tem um papel fundamental. O grau de empenho e de compreensão de dono determinará, em grande parte, o resultado deste processo visto que o dono terá que aprender uma nova forma de interagir com o seu cão numa base permanente. Ainda assim, com muito trabalho está ao seu alcance alterar o comportamento do seu cão.