Registo
Foto Fomos conhecer o grupo Gameness Alentejo

A nossa última viagem foi até à cidade de Évora. Encontrámo-nos com Filipe Rodrigues que nos guiou até ao monte alentejano onde a equipa Gameness Alentejo, da qual faz parte, tem o seu campo de treino.

Aqui fica a entrevista e uns momentos da demonstração que a Gameness Alentejo organizou especialmente para o Doglink.

Olá Filipe! Bem, vocês têm aqui uma paisagem incrível!

É verdade, até temos um lago ali em baixo e quando está muito calor vamos para lá com os cães!

Para começar, como é que surgiu o grupo Gameness Alentejo?

Vou-te contar a história toda. Eu sempre gostei de Pit Bulls mas nunca tinha pensado em ter um. Até ao dia em que um colega meu me apresentou o American Pit Bull Terrier dele e me deu a conhecer a sua faceta ultra desportiva. Adquiri nas vizinhanças o meu primeiro Pit Bull, o Devil. Nessa altura falávamos sobre fazer desporto com os nossos cães, mas foi só em 2005 que realmente conheci o Gameness. Li um artigo sobre o Gameness da APO (Associação Pitbull Oeste) e fiquei imediatamente fascinado! Meti logo mãos à obra, montei uns obstáculos no campo lá de casa e começei a treinar por lá.

Foi nessa altura que nasceu o Gameness Alentejo?

Bem, nessa altura surgiu a nossa primeira equipa mas ainda não tinha esse nome. Chamava-se Housypeople por morarmos no Bairro da Casinha. Erámos 5 ou 6 pessoas e cada uma com um cão. Mais tarde, quando nos mudámos para este terreno construímos o espaço e surgiu a ideia de um novo nome para a equipa, o Gameness Alentejo.

Suponho que desde então as coisas já evoluíram bastante.

Sim. Hoje em dia já somos uma equipa maior e mais experiente. Temos cerca de 10 cães a treinar semanalmente para provas, fora os que nos visitam mensalmente para vir experimentar este desporto – os que apanham o bichinho do Gameness ficam. Também já temos mais obstáculos para completar o nosso campo de treino, participamos em eventos e organizamos alguns.

Mas por que regulamento é que se regem? Como ainda não existe nenhuma Federação nem regulamento geral de Gameness em Portugal…

Pois, ter um clube de Gameness era muito importante, mesmo para vir a ter um campeonato nacional. Isso já tem vindo a ser discutido e espero que em breve se concretize. Mas respondendo à tua pergunta, no nosso grupo regemo-nos principalmente pelo regulamento brasileiro, afinal de contas eles foram os pioneiros da modalidade. No entanto, também incluímos nos nossos treinos e eventos, provas de outros regulamentos, como a A-frame, que é considerada uma prova do Regulamento Belga, ou até mesmo o Lure Racing, que achámos por graça experimentar e estamos a pensar incluí-lo como uma das provas do circuito. Adaptamos as técnicas e provas que achamos que podem ser mais benéficas para os nossos cães, sempre apostando na segurança do treino. Por exemplo, no Regulamento Espanhol a parede da escalada é de rede e está provado que a parede de borracha é a mais segura, por isso nós optamos por esta última. O cão faz menos uns 40 cm, mas ainda assim é mais seguro!

E em relação aos eventos que vocês organizam, são abertos ao público?

Sim, são abertos e não se paga nada para assistir. Costumamos organizar demonstrações para dar a conhecer a modalidade mas também encontros com atribuição de prémios. Nos últimos, as inscrições tinham preços simbólicos somente para ajudar a comprar algum material que se vai gastando com o uso e os troféus a atribuir. O segundo encontro que organizámos contou com a presença de 50 pessoas e vieram participantes de vários sítios, incluindo uns camaradas espanhóis! [risos]

Por falar em espanhóis… Vimos no vosso facebook que foram a um campeonato da AND-APBT em Sevilha e trouxeram bastantes prémios, parabéns!

Obrigado. Realmente ficámos bastante satisfeitos. Levámos só dois cães, o Yoshi e Bobells, e eles tiveram óptimos resultados, sobretudo na escalada. É bom vermos que o nosso trabalho está dar frutos – dá-nos ainda mais motivação! Para além disso, a participação em eventos deste género dá-nos a possibilidade de conviver com outras pessoas que adoram o Gameness e, no fundo, expandir o bom convívio que temos no nosso campo de treino.

Os cães da equipa são todos Pit Bulls?

Sim, neste momento são.

Mas o Gameness não é um desporto só para Pit Bulls, certo?

Certo. O Gameness não é restrito a Pit Bulls. Os cães de outras raças ou SRD também podem exibir bons desempenhos. Por exemplo, em Lisboa há um Malinois que tem óptimos desempenhos, tanto ou mais que os nossos cães! Este desporto foi inicialmente desenvolvido com cães de raça Pit Bull e, como tal, já há bastantes linhagens seleccionadas para a modalidade. Ainda assim, apesar dos nossos cães não terem pedigree os resultados estão à vista.

É verdade, onde adquiriste o teu Yoshi?

O Yoshi foi levado para o Canil Municipal de Lisboa juntamente com a Mãe e o resto da ninhada depois de uma rusga num bairro social. A mãe foi abatida e, dos cachorros, ele foi o único que sobreviveu. Nessa altura uma rapariga da APO prontificou-se a ficar com o Yoshi e tornou-se FAT. Ela sabia que eu estava à procura de um cão para treinar, e entregou-mo a mim. Ele passou de pele e osso para este cãozarrão, não foi Yoshi?

E os treinos são muito intensos?

Nós treinamos obstáculos só uma vez por semana. Não o fazemos mais para não abusar das articulações dos animais. Depois o treino é feito fora do campo: três vezes por semana faço corrida com o Yoshi. Os Pit Bulls são animais que precisam de muito exercício, mas há-que saber também os seus limites.

Para além de ser uma modalidade, Gameness é uma característica de persistência e determinação. Para um cão fazer Gameness é preciso ter Gameness?

Sem dúvida. Pode-se tentar introduzir, incentivando com brinquedos, mas um cão nunca irá muito longe se não tiver gameness, game ou, como dizemos aqui, “coração”. Um bom exemplo disso é a irmã do Malibu [um dos melhores cães da equipa]. Tu mostras-lhe o brinquedo ela abana-se toda, mas nada mais do que isso – é realmente um cão de sofá. Nem todos os cães têm a capacidade física e mental para este desporto, e mais do que a componente física, a componente psicológica é essencial. Se um cão falha a trajectória e falha o brinquedo, perde a moral e vai-se abaixo. Um cão sem game vai uma, duas e três vezes mas com cada vez menos desejo. Um cão com game falha três ou quatro vezes, mas na quinta ainda vai com mais vontade…  é a diferença!

Por ser um desporto que está sobretudo associado a Pit Bulls, qual é a reacção das pessoas quando assistem a provas de Gameness? 

A primeira reacção que as pessoas têm quando vêm Pit Bulls é ficarem retraídas – para quem não conhece, é inevitável porque, infelizmente, a má fama do Pit Bull está muito enraizada. Mas quando os cães começam a trabalhar a atitude começa a mudar. Ficam surpreendidas não só pela paixão que os animais demonstram pelo trabalho mas também pelo seu temperamento: os cães andam ao pé das pessoas e, em geral, não são cães agressivos para com outros cães. No último evento que organizámos, na Herdade da Mata, foi o que aconteceu. No final, os espectadores ficaram fascinados e aplaudiram bastante – foi bastante gratificante!

Achas que com esta modalidade é possível converter os amantes de práticas mais obscuras e ilegais em amantes de práticas mais saudáveis?

Acredito que sim. Com este tipo de selecção é possível mostrar os cães a todas as pessoas e exibir este trabalho a toda a comunidade, em vez de ter os cães sempre fechados. O Gameness permite desenvolver cães desportistas e equilibrados. Para além disso é um convívio saudável, em que não corres o risco de perder o teu cão!

Para acabar, achas que a modalidade tem ajudado a desmistificar a imagem negativa e individualista dos Pit Bulls? Ou poderá vir a fazê-lo?

Sim, sem dúvida! O Gameness já está a mudar muitas mentes. Em minha casa, por exemplo, quando o Devil chegou a casa, a atitude imediata da minha mãe foi bastante negativa. Hoje em dia, é o “Lulu” dela e a minha mãe é uma grande divulgadora da modalidade cá da zona, passeando frequentemente o seu Yorkshire juntamente com o Devil.