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Foto Do lobo ao cão: será que foi na Europa que tudo se passou?

O estudo publicado hoje na revista Science revela uma nova resposta para uma pergunta bastante mediática: onde é que os cães foram originários?

Há um consenso bastante geral de que os cães são descendentes de lobos (Canis lupus) os quais começaram a seguir – ou foram domesticados por – humanos. Esta teoria tem sido contada de gerações em gerações, mas onde e quando é que tal aconteceu é alvo de um debate que quase parece ser infindável.

E há boas razões para tal. Os dados morfológicos não são esclarecedores: os primeiros cães pareciam-se com os lobos, mas hoje em dia alguns cães ainda o parecem. Além disso, tal como nos humanos, os cães são viajantes astutos e, como tal, rastreá-los é uma tarefa difícil.

Os dados genéticos também parecem contraditórios. Em 2002, Peter Savolainen, do Royal Institute of Technology na Suécia, relatou na revista Science que a domesticação do cão ocorreu no sul da China há cerca de 15 mil anos atrás. A análise de fragmentos de DNA mitocondrial de cães da actualidade revelou que a grande diversidade genética nos cães poderia ser encontrada nessa região chinesa, sugerindo que foi aí que o cão terá tido a sua origem.

O DNA mitocondrial passa das mães para os seus filhos e filhas, e é frequentemente utilizado para rastrear as linhagens maternas nas populações humanas, bem como noutras espécies animais.

Durante anos, esta pareceu ser a resposta à pergunta. No entanto, em 2010, surgiu um novo estudo na revista Nature conduzido por Robert Wayne, da Universidade da Califórnia. Wayne e a sua equipa chegaram à conclusão que os cães não tinham a sua origem na Ásia, mas sim no Médio Oriente. O problema do artigo publicado anteriormente é que a diversidade genética, embora seja um indicador de confiança para estudar as origens do Homem em África, tem menos expressão quando aplicada aos cães, diz Dr. Wayne – o qual também esteve envolvido no artigo publicado este ano. A elevada migração, tráfico e criação dos cães afecta drasticamente a diversidade genética e é complicado saber que genes é que foram adquiridos onde e quando, explica o doutor.

Ao invés, Wayne e os seus colegas investigaram o genoma mitocondrial dos cães e dos lobos actuais. No entanto, os resultados destes estudos foram rapidamente descredibilizados pois concluiu-se que os cães não estão relacionados com os lobos actuais mas sim com os lobos ancestrais. Ou seja, comparar o DNA dos lobos modernos com o genoma dos cães não irá dar qualquer pista acerca da origem do cão.

Assim, Dr. Wayne juntamente com Olaf Thalmann, um geneticista da Universidade de Turku, na Finlândia, resolveu utilizar não só genomas actuais como ancestrais. A equipa analisou o DNA mitocondrial de 18 canídeos pré-históricos com cerca de 36 mil a mil anos de idade. Estas sequências foram depois comparadas com o DNA mitocondrial de 49 lobos, 77 cães e 4 coiotes actuais.

Depois, todas as espécies foram colocadas numa árvore genealógica. O mapa mostrou que os canídeos ancestrais europeus foram agrupados nos grupos dos cães actuais, sugerindo que os nossos companheiros de quatro patas são originários de lobos outrora extintos na Europa. A análise molecular aponta também que tudo terá acontecido há 18.800 e 32.100 anos atrás.

Estas descobertas são consistentes com os registos fósseis, dado que as espécies de cães mais antigas são da Idade da Pedra na Bélgica e na Rússia, diz Wayne.

Dr. Wayne adiantou que a domesticação do lobo provavelmente ocorreu nos grupos de caçadores-recoletores. Os lobos passaram a seguir os grupos de caçadores e a alimentar-se das carcaças de animais. Com o tempo, aproximaram-se dos humanos para acabar por evoluir em conjunto com estes, dando origem aos cães, sustenta o estudo.

A investigação publicada na Science não vai terminar com a controvérsia científica sobre a origem dos cães. Devido à baixa variabilidade das amostras e à dificuldade de se provar a origem a 100 % de algumas delas que estão na base dos estudos, é complicado encontrar respostas certas ou que, pelo menos, agradem a “gregos e a troianos”.

Como todas as conclusões se basearam somente no DNA mitocondrial, o próximo passo, segundo Thalmann, será estudar o DNA nucleico das espécies ancestrais.

Fonte: CS Monitor