Registo
Foto Terapias assistidas com cães

Em 1792, foi fundado o Retiro York em Inglaterra como alternativa às condições sub-humanas que se verificavam nos manicómios da época. O tratamento dos pacientes baseava-se em ensinar autocontrolo através de animais que estariam dependentes dos pacientes. Este método permitiu diminuir as doses de medicação bem como outros constrangimentos. O Retiro York foi a primeira instituição a documentar o uso de animais para terapia e serviu de modelo para reformar outros manicómios da altura.” Netting et al. 1987.

Todos os donos reconhecem o impacto que um animal de companhia tem nas suas vidas, mas será verdade que esse mesmo sentimento de cura, segurança e amor incondicional pode se transmitir a outras pessoas? As terapias assistidas com cães especialmente treinados têm demostrado que sim.

Intervenções assistidas

Os cães são sem dúvida os animais com maior reputação nas terapias assistidas com animais. O seu trabalho com crianças, idosos e até pessoas com doenças específicas é cada vez mais reconhecido. Em Portugal, embora não haja nenhuma entidade reguladora estabelecida, já se realizam intervenções com cães desde os anos 90, sejam elas actividades assistidas com animais (AAA) ou terapias assistidas com animais (TAA).

As actividades assistidas englobam a simples visita do cão de terapia a um lar que por si só se sabe que vai criar bem-estar, trazer boa disposição, fazer com que as pessoas comuniquem mais entre elas, etc. Outra actividade de terapia pode ser a visita de um cão a uma escola. Estas actividades são essencialmente lúdicas, motivacionais e por vezes educativas, donde pode indirectamente surgir um efeito terapêutico. No entanto, não há uma meta a atingir, ou seja, não há um utente com um determinado problema específico diagnosticado ao qual é necessário intervir para ajudar e melhorar. Como tal, as AAAs não implicam a presença de um profissional técnico de saúde, seja ele um psicólogo, um professor ou um fisioterapeuta.

Por outro lado, as terapias assistidas já pressupõem um programa mais detalhado, a presença de um técnico, um objectivo a cumprir e uma análise dos resultados. O cão aparece aqui como uma “ferramenta” para ajudar os técnicos a alcançar esses objectivos, sendo treinado especificamente para potenciar ao máximo a interacção terapeuta-paciente.

Em muitos casos, as TAAs são aplicadas como complemento às terapias convencionais, sempre que estas não conseguem atingir objectivos propostos e os resultados são quase sempre positivos.

Cães são “desbloqueadores”

As terapias assistidas com animais são especialmente eficientes em crianças que sofreram traumas emocionais, sociais ou físicos. O envolvimento de cães nas terapias para casos de autismo ou depressão demonstrou, em vários casos, reduzir a dependência da medicação e proporcionar um espaço seguro para a auto-expressão dos pacientes.

O sentimento de desconexão e incompreensão pelos que nos rodeiam é algo que todas as pessoas já sentiram num ou noutro momento da sua vida. Contudo, estes sentimentos são mais intensos e profundos em pessoas com depressão, ansiedade e autismo – o que leva a que as pessoas experienciem longos períodos de isolamento.

O envolvimento com animais permite uma forma de interacção única – a sua natureza brincalhona transporta as crianças autistas para fora do seu mundo, proporciona muita companhia e amor para aqueles que sofrem de depressão, e dá esperança a todos os que perderam fé na humanidade. Com os cães é possível criar um espaço sem máscaras ou expectativas. Passo a passo o paciente fica mais aberto para as relações, primeiro com os animais e depois com as pessoas.

A eficiência das terapias assistidas com animais é algo que está a ser cada vez mais explorado; os estudos realizados até agora demonstram que estas terapias permitem reduzir a tensão arterial, reduzir as hormonas associadas ao stress e aumentar os níveis de compostos de “boa-disposição” no cérebro.

É a combinação de amor descomplicado, rotina, companheirismo, responsabilidade de cuidar de um animal e interacção social frequente que torna a terapia assistida por animais num método multifacetado capaz não só de ajudar quem se sente só como quem se está a desenvolver.