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Foto Estereótipos e raças de cães

Será que as teorias da psicologia acerca dos estereótipos que as pessoas fazem umas das outras podem também explicar os estereótipos que muitas fazem em relação às diferentes raças de cães? Esta foi a questão que uma equipa de investigadores da Universidade de Lincoln colocou.

Muitos países europeus (incluindo Portugal) têm uma legislação específica para certas raças, que impõe várias restrições a cães, na sua maioria, do tipo bull. Também o Reino Unido (local onde se realizou o estudo) tem este tipo de legislação. Ainda assim, em todos estes países, há várias histórias de ataques de cães.

Uma das questões que este estudo levanta é saber se as ideias das pessoas acerca de certas raças são influenciadas por estereótipos. Se assim for, esta legislação pode estar a iludir as pessoas dando-lhes uma ilusão de segurança ao invés de fazer com que estas fiquem realmente mais seguras.

Hipótese do contacto

Para este estudo, os investigadores recorreram a uma teoria chamada “hipótese do contacto”, a qual é usada normalmente por sociologistas para compreender a origem de estereótipos raciais ou outras formas de preconceitos. As nossas atitudes em relação a um determinado grupo de pessoas (de uma raça diferente, por exemplo) são influenciadas quando entramos em contacto com esse grupo. Ou seja, se tivermos um contacto positivo com os membros desse grupo, então as nossas atitudes para com esse grupo são melhores. Curiosamente, não é preciso que este contacto seja presencial – contacto imaginativo (como imaginar que vamos encontrar uma pessoa simpática numa reunião) é suficiente para alterar a nossa atitude (Crisp e Turner, 2009).

Quando aplicamos esta teoria aos cães, é de se esperar que as pessoas com menos contacto com cães acreditem mais nos estereótipos comportamentais que se criam à volta de certas raças.

Apesar de existirem evidências de certos traços comportamentais específicos para cada raça, cada cão é um exemplar único. As pessoas que sabem mais sobre cães podem estar mais conscientes de que o comportamento canino não é só influenciado pela genética. Por exemplo, estas pessoas podem estar mais informadas acerca da importância da sociabilização dos cachorros, acerca de treino canino e acerca das consequências dos abusos e maus-tratos em animais.

Os resultados

Foram interrogadas mais de 160 pessoas de Londres e descobriram-se variações significativas nas atitudes das pessoas que tinham cães ou que se relacionavam regularmente com estes, e aqueles que não tinham. Mais de metade (54 %) dos interrogados com “experiência” ou “conhecimento acerca de raças” discordaram com a ideia de que há raças mais agressivas que outras. Somente 15% dos interrogados, que disseram ter pouca ou nenhuma experiência com cães, é que partilharam este mesmo ponto de vista.

Da mesma forma, mais de metade das pessoas inquiridas habituadas a cães sentiram que não havia necessidade de existir uma legislação específica para certas raças, enquanto que apenas 1 em 10 pessoas inexperientes partilharam a mesma opinião.

Os resultados foram consistentes ao indicarem que os principais factores no que toca a fazer estereótipos acerca de certas raças são não só os níveis de interacção mas também a qualidade do contacto com cães.

Isto sugere que a hipótese de contacto pode ser aplicada às relações com cães. Um dos autores do estudo diz que “as pessoas com menos experiência com cães têm maior probabilidade de possuir estereótipos acerca das raças, assim como acontece às pessoas cujos cães têm um papel menos importante nas suas vidas”.

Uma falsa segurança

Como os cientistas mencionam, os estereótipos que são criados à volta das raças acabam por se tornar “verdades” no senso comum das pessoas. Segundo a hipótese de contacto, as pessoas ao se depararem com alguém que se assemelhe a um grupo em particular tendem a generalizar. Em relação aos cães, isto significa que as atitudes em relação aos cães de tipo bull, pode ser generalizada para outros cães que sejam musculados e com pêlo curto (ex. Boxer).

Os investigadores dizem que “a imagem de cães do tipo bull com estrutura bem musculada e poderosa parece ser o estereótipo de cão perigoso que se apresenta como uma ameaça pública, apesar desta generalização ser cientificamente descabida. O rótulo negativo de raças como o American Pit Bull Terrier e outras raças de aparência semelhante leva a que as pessoas tenham uma percepção simplista acerca do seu comportamento”.

O desconhecimento acerca do comportamento canino e a categorização pela lei de certas raças, faz com que se gere um falso sentido de segurança. Além disso, a atracção por determinadas raças baseada na aparência pode fazer com que estas sejam escolhidas como “armas” ou para dar estatuto a certas pessoas.

Alguns donos estão bastante empenhados em melhorar as atitudes em relação a certas raça. Por exemplo, nos EUA, a Pitbull Elle foi eleita cão do ano de 2013 e, aos poucos, está a mudar o estereótipo acerca dos pitbulls e do papel dos cães de serviço.

Os resultados deste estudo sugerem que o contacto positivo com qualquer cão e/ou conhecimento acerca de cães têm efeito na atitude das pessoas em relação à legislação específica para determinadas raças.

Referência: Clarke, T., Cooper, J., & Mills, D. (2013). "Acculturation - Perceptions of breed differences in behavior of the dog (Canis familiaris)" Human-Animal Interaction Bulletin, 1 (2), 16-33.